Nascida para cantar

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Na Vila Pompéia mora uma diva: a meio-soprano Denise de Freitas, 38 anos. Esta simpática paulistana descobriu o dom para o canto lírico há cerca de 13 anos e não parou mais. Trocou a carreira de secretária bilíngüe pelos palcos, onde mostra sua versatilidade artística nos principais papéis dos repertórios sinfônico e operístico.
Denise já interpretou Cherubino, em As Bodas de Fígaro (Mozart); foi o garoto João em João e Maria (Humperdinck), protagonizou Carmen (Bizet) e, em Os Contos de Hoffmann, foi Niklaus. A cantora também se apresentou como solista em obras de Villa-Lobos, Manuel de Falla, Berlioz, Beethoven e Mahler, entre outros. Em 2006, participou de La Gioconda e novamente de As Bodas de Fígaro com a Sinfônica Municipal de São Paulo; e nas óperas Otello, Werther e La Gioconda no Festival Amazonas de Ópera, que lhe abriu as portas para a carreira no exterior.
Você pensava em ser cantora lírica?
Nem pensava nisso! Na minha família ninguém é artista. E eu acabei optando pela faculdade de Letras, fiz todos os cursos possíveis para ser secretária bilíngüe, que era o que eu queria. Primeiramente fui ser professora, mas vi que o dom para as palavras não estava ali, na sala de aula. Fiquei sete anos trabalhando como secretária. Mas eu tenho o meu lado artista. Sempre gostei de imitar cantores populares. Como eu não conhecia nada de música clássica, eu imitava meus cantores prediletos, como Gal Costa, Maria Bethânia, Barbra Streisand, Diana Ross… Cheguei a ter uma banda de pop rock na faculdade. Quando entrei na Cultura Inglesa para fazer curso, havia um coral amador cantando música clássica. Eu ouvi e achei lindo! Fiz um teste e vi que conseguia cantar daquele jeito. Não tinha a técnica ainda, mas a minha voz se encaixava no canto lírico. Foi quando comecei a me preparar. Fiz cursos particulares e também estudei na Faculdade Livre de Música, que era gratuita, onde conheci a minha professora, Lenice Prioli.
Acredita ter começado a carreira muito tarde?
Sim, comecei tardiamente. Geralmente, cantores líricos começam a se preparar aos 17, 18 anos. Mas aí é que está: era para este lado que eu tinha que ir, e a minha vida foi conduzida da melhor maneira. Pedi demissão do meu emprego, fiquei um ano desempregada, e neste tempo as coisas aconteceram. Acredito muito nos mistérios da vida. Às vezes, é preciso esperar, ter paciência para as coisas acontecerem. Para mim foi exatamente isso, mas não tem uma explicação lógica. Houve quem me ajudasse, é claro, e situações como quando descobri o coral.
Você já interpretou vários clássicos. O que destacaria no seu repertório?
A primeira ópera que fiz foi “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, e com ela também abri a temporada no Teatro Municipal em 2006. Foi um sucesso de público, as pessoas amaram a ópera. E é um personagem que eu amo fazer, que é o Cherubino, um jovenzinho muito engraçado e que apronta muito. Eu sou tímida, mas na ópera sou muito cômica.
Prefere interpretar comédias ao invés de tragédias?
Não é bem isso… Eu gosto das tragédias também, mas até agora interpretei mais papéis cômicos. E eu me dou bem, talvez por ser tímida. E no palco é preciso se soltar, ter expressão. Para encarnar vários personagens tem que haver entrega. A musica é muito coração, alma, interpretação. Para tocar a pessoa que está assistindo é preciso se entregar de verdade. Chego lá e é isso que faço.
Isso acontece também ao interpretar personagens masculinos?
Também. É um pouco mais difícil, pois é preciso pensar na parte técnica, por exemplo, no andar. É preciso andar como um homem. Tem que tirar toda a feminilidade. É claro que a platéia sabe que é uma mulher que está interpretando, então não será totalmente o jeito de um homem… Mas trabalho isso. Observo as pessoas, percebo o que um homem faz, tem toda uma análise em cima disso para poder interpretar da melhor forma possível.
Ou seja, além da técnica de canto é preciso aprender muito sobre a parte cênica…
Sim, isso é muito exigido. É claro que uma pessoa que vai assistir à ópera vai querer ouvir sua voz. Mas também vai olhar a sua interpretação, tanto vocal quanto cênica. Neste momento é que entra a capacidade de um bom diretor cênico, porque sem ele não somos ninguém. É ele quem dá todas as diretrizes para fazermos um trabalho bem feito. É preciso pensar em tudo! Você tem que olhar para o maestro, ouvir a orquestra, encenar e cantar bem. A voz não pode falhar, a pessoa tem que te ouvir… Temos toda uma técnica para justamente cantar sem microfone.
Há alguma preparação especial para cantar?
Quando eu comecei era bem neurótica! Não tomava gelado; ficava muda… Morava com meus pais e minha mãe queria conversar e eu não falava! Coitada da minha mãe! Mas ainda hoje evito ir a lugares fechados onde há muita fumaça de cigarro, muito barulho, onde eu precise falar alto; eu não bebo…Tenho uma vida bem regrada. Mas estou feliz porque eu sou assim. Já é do meu temperamento não ir a baladas, ficar mais em casa ouvindo meus CD’s de música popular.
Por falar nisso, quais são seus cantores e compositores preferidos?
Têm vários! Sou apaixonada por Cartola e Elis Regina. Quanto aos clássicos, Maria Callas. Ela mostra para todas as outras cantoras o que é realmente cantar, interpretar, ter postura em cena e saber usar a voz. Quanto aos compositores, amo Mahler, Brahms, Mozart, Rossini… Não tem como não gostar! O que será que acontecia na hora para que eles compusessem daquela maneira? É divino!
Você foi a recordista de óperas no Teatro Municipal em 2006. Qual a sensação de pisar neste palco pela primeira vez, o sonho de todo cantor lírico?
Eu tremo até hoje. Essa sensação não passou. É lindo, mágico, um presente de Deus. E flui! Eu ainda fico nervosa, não tem como não ficar. Mas quando você faz aquilo que gosta, parece que as coisas fluem mesmo. Ainda que aconteça algum imprevisto, você consegue superar. Para mim foi muito especial cantar no Municipal e em outros teatros. É até hoje. Cada vez que eu entro em um palco eu agradeço de poder estar ali.

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