Sempre na ponta dos pés

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Mariangela D’Andréa, moradora de Perdizes, consagrou-se em atuações de balés pelo mundo.

“Eu amo o que faço, e o que eu sempre fiz”, declara a bailarina clássica e professora de dança Mariangela D´Andréa. Hoje, aos 66 anos de idade, tem orgulho e gratidão por tudo o que conseguiu com a dança, incluindo seus prêmios, suas viagens pelo mundo e as alunas que teve durante toda a vida.

Sua história no balé clássico começou quando Mariangela era ainda bem pequena. De compleição “mignon”, foi levada ao balé por indicação médica. “Sempre fui muito pequena e magrinha e o médico achou que ao fazer exercícios, eu me desenvolveria, comeria melhor, enfim… naquela época existiam apenas a natação do DEF e a Escola Municipal de Bailado, na qual entrei com a carta de recomendação para ser aluna assistente por seis meses”, conta.

Os seis meses de aluna assistente se transformaram em oito anos de intensa atividade e, após formada na Escola Municipal, prosseguiu sua carreira até os dias de hoje. “Quando eu era criança, existia muito preconceito das famílias com relação ao balé, por conta do teatro de revista. Assim, quando tive alta médica, meu pai quis me tirar das aulas, mas eu bati o pé, dizendo que, se ele me tirasse, eu não comeria nem iria mais à escola. Imagina fazer isso com 10 anos de idade, naquela época?! [risos]. Minha mãe, então, vendo que eu gostava de dançar, me levava escondido, até que um dia fui convidada para representar a escola de bailado num programa de televisão e meu nome acabou saindo nos jornais, com a seguinte manchete: “Nasce a futura bailarina clássica de São Paulo”. Meu pai chegou com esse jornal, mas o orgulho de ver seu sobrenome estampado na página e a conversa toda da minha mãe sobre me deixar continuar, acabaram transformando meu pai no meu maior fã”, revela Mariangela.

Ela ainda ganhou mais dois anos de aulas no Municipal, por conta de sua performance primorosa e também pelas ótimas notas que obtinha ano após ano. “Eu era uma criança muito tímida, mas quando entrei no bailado, encontrei meu mundo, no qual podia expressar o que sentia. Eu me soltava no palco. Era a vida pra mim… digo que não fui eu quem escolheu a dança, mas ela que me escolheu. Vivi minha vida inteiramente para a dança e sou muito grata por isso”, diz.

Mariangela se apresentou em muitos lugares nas décadas de 1950 e 1960 e era sempre muito requisitada para representar a Escola Municipal de Bailado em festivais e eventos, incluindo os do Palmeiras.

Em 1968, ano em que foi criado o primeiro corpo de baile de São Paulo, a bailarina prestou concurso e conseguiu a primeira colocação. “Ia prestar vestibular de Medicina, mas quando soube que havia passado no concurso, optei (novamente) pela dança. Então, eu tinha meu salário como funcionária pública e continuava a fazer o que sempre gostei, que era dançar. Entrava no Teatro Municipal às 9h e saia às 15h. De terça e quinta eu dava aulas de dança no colégio Liceu Pasteur e de segunda e quarta no Dante Alighieri. Então minha vida foi assim: balé e dança, dança e balé.”

Durante 10 anos (dos 20 aos 30 anos de idade), Mariangela foi a 1ª primeira bailarina do Teatro Municipal e percorreu o Brasil, a América Latina e a Europa, se apresentando inclusive nos teatros San Carlo, de Nápoles, e Massimo, de Palermo, ambos na Itália. Destacou-se em atuações de repertório clássico, como “Giselle”, “Cisne Negro”, “Don Quixote”. Foi considerada a melhor bailarina clássica e agraciada durante quatro anos consecutivos com o Troféu Imprensa, o Anna Pavlova e o Maria Olenewa. “Minha mãe sempre ia comigo nas apresentações, meu pai não me deixava viajar sozinha. Os empresários sabiam disso e na última cláusula dos contratos havia um item dizendo que minha mãe era minha acompanhante. Sempre achei isso o máximo porque essa era uma maneira de ‘retribuir’ toda a persistência dela para que eu continuasse no balé e tudo o que ela me proporcionou ao me deixar seguir a carreira.”

Ainda naquela época, Mariangela seguiu como diretora artística e professora de dança nos colégios Liceu Pasteur e Dante Alighieri, nos quais ficou mais 15 anos. Ela também deu aulas no Conservatório Musical e Faculdade de Dança Marcelo Tupinambá.

Sempre fazendo cursos e reciclando conhecimentos, em 1976, a bailarina abriu sua própria escola, a Academia de Ballet Clássico, na qual foi diretora, coreógrafa e professora durante 25 anos. “Meu estúdio ficava na Alameda Casa Branca, bem na esquina do Dante, por isso tive muitas alunas desse colégio”. Paralelo a isso, em 1992, Mariangela voltou para a Escola de Balé do Municipal, que já havia mudado o ensino de clássico para contemporâneo, com o cargo de assistente artística, até se aposentar em 2009. “No dia em que entrei novamente no Municipal, parecia que o tempo não havia passado. Naquela sala enorme, eu me vi ainda pequena, como no meu primeiro dia de seleção. Foi ótimo ter voltado… Como assistente artística, passei a coordenar a programação anual do conteúdo do Municipal.”

Além disso, é diretora geral e artística do Stúdio D´Andréa. “Há alguns anos, encontrei muitas ex-alunas do Dante nas redes sociais. Nunca soube a dimensão da sementinha que plantei até ganhar um estúdio com meu nome. É muita emoção! Eu, a Gisela Maldonado, a Karin Rona e a Rosa Freitag cultivamos uma relação maravilhosa e acabamos de completar um ano de atividades. Pessoas de todas as idades podem fazer balé, o que desfaz o mito de que ele deve ser aprendido apenas quando criança, pois todo corpo se move”, reitera. “Eu sou feliz porque nasci no tempo certo e se tivesse de voltar em outra vida, faria tudo de novo.”

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