Por trás das feiras livres

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São Paulo conta com 36 mercados municipais e varejões e cerca de 900 feiras livres. No subdistrito da Lapa, do qual Perdizes e Pompéia fazem parte, acontecem 24 feiras. A pessoa responsável por coordenar isso tudo é José Roberto Graziano, supervisor-geral de abastecimento dos mercados, feiras livres e varejões da cidade.
Há quase dois anos no cargo, além do trabalho administrativo que inclui licenciar feirantes, Grazziano vem fazendo mudanças significativas em relação a qualidade dos produtos e serviços oferecidos pelos feirantes e permissionários. Para isso, ele mudou o perfil da equipe de trabalho que hoje é composta por médicos veterinários e engenheiros agrônomos. Ele também implantou o mapeamento de ofertas de frutas, legumes, verduras na cidade e produtos frescos com a finalidade de melhorar o abastecimento em determinados pontos da cidade, assim como proporcionar condições para um empresário abrir seu negócio no ramo.
O trabalho de supervisionar mercados municipais, varejões e feiras livres é bem abrangente. Grazziano, morador de Perdizes, esclarece algumas curiosidades, falando para o Guia Daqui como funciona esse tipo de comércio bastante popular.

O senhor faz feira? (risos)

Faço feira. (risos) Agora o tempo está mais curto, tenho feito mais mercados. Pela facilidade de trabalhar ao lado de um, dou mais opção aos mercados.

Desde quando o senhor está no cargo de supervisor?

Desde o início do ano passado, 13 de janeiro. Sou engenheiro agrônomo. Fui gerente do Ceasa por 5 anos. Trabalhei na Secretaria Estadual de Agricultura, sempre na área de abastecimento. Comecei com produção agrícola na Secretaria de Agricultura. Ceasa já é comércio de grande porte, mas é abastecimento. Depois vim para a prefeitura, onde estou cuidando desta parte de varejo dos mercados municipais.

>b:Como é supervisionar mercados, feiras e varejões em São Paulo, visto que a quantidade é bem grande?

Temos 14 mercados municipais de grande porte e 22 pequenos mercados que são os sacolões municipais. Algumas unidades, apesar de serem chamadas de sacolões, têm tamanho de um mercado municipal. Estamos reclassificando essa situação. Então, são 36 unidades mercados e sacolões e, basicamente, 900 feiras livres. Realmente é uma grande cota de tarefa.

Quantas feiras acontecem em Perdizes?

Não tenho esses dados separados por bairros. Nossa base são as subprefeituras. Perdizes faz parte do sub-distrito da Lapa. Temos 24 feiras na Lapa: cinco aos domingos, cinco às terças-feiras, cinco às quartas, seis às quintas, duas às sextas e uma aos sábados.

Segunda não é dia de feira?

O feirante compra produto fresco que foi comercializado no Ceasa naquele dia ou no Mercadão. No domingo o agricultor não trabalha, então não colhe. Na segunda-feira não tem entrada de produtos novos antes do horário do almoço. As feiras sempre acontecem de manhã cedo, assim os feirantes não têm como se abastecerem. O produto da feira tem que ser muito fresco. Ou o feirante compra na segunda à noite ou na terça de madrugada para fazer a feira no mesmo dia. Então, segunda não tem feira porque não tem esse circuito que já vem da colheita da roça.

Supervisionar feiras, mercados e varejões implica basicamente em checar a qualidade dos produtos?

A Prefeitura sempre trabalhou no tocante das questões administrativas. Neste governo, achamos que verificar se o sujeito está autorizado ou se ele paga seus impostos é muito pouco. Meu propósito de vir para cá foi buscar a qualidade tanto do alimento como do serviço prestado. Mudei muito o perfil da minha equipe que hoje é composta por médicos veterinários, engenheiros agrônomos… O objetivo desta equipe é realmente verificar a qualidade do alimento oferecido. Isso está sendo feito em mercados municipais desde o ano passado. Hoje estamos com um nível de qualidade dos mercados muito acima dos estabelecimentos de rua. Nas feiras, começamos este ano a desenvolver esse trabalho que inclui o ambiente, uniformes dos feirantes, cuidados pessoais, a maneira como desempenham suas atividades e o alimento em si. Todo dia há uma equipe de fiscalização correndo as feiras e trabalhando nessas questões.

Uma das novidades que o senhor implantou foi o mapeamento da oferta na cidade. O que isso significa exatamente?

A equipe de agronômos está fazendo um mapa de ofertas de frutas, legumes, verduras na cidade e produtos frescos que os são pescados, aves e carnes. Buscamos levantar todos os pontos que comercializam isso e que têm ofertas. O objetivo é orientar a prefeitura para um trabalho de abastecimento onde a população está menos provida destes produtos, atendendo e oferecendo esses produtos. Assim podem surgir oportunidades para a iniciativa privada. Alguém pode querer abrir um açougue, uma peixaria…Esse estudo ainda está difuso na cidade, mas já nos permitiu algumas tomadas de decisão no sentido de reformar e ampliar unidades municipais. Já estamos inclusive em um projeto que visa montar um mercado municipal na subprefeitura de São Mateus, em função da baixa oferta, especialmente, de frutas, verduras e legumes. Estamos identificando terrenos para poder fazer um bom mercado municipal.

A prefeitura também desenvolve projetos educativos em alimentação?

Temos um programa de educação alimentar que ocorre nas escolas municipais. Esse programa é feito com as crianças e seus familiares. Estamos trabalhando em 25 escolas de São Paulo, com basicamente 15 mil alunos. Inclusive, existem algumas escolas na região da Lapa que fazem parte do programa.Treinamos os professores da rede municipal, damos um suporte de trabalho para que eles multipliquem o hábito de alimentação saudável entre as crianças. O engordamento da população é algo preocupante. Quase 25% dos jovens, entre 11 e 18 anos, das escolas municipais estão na faixa da obesidade. Os menores, de 6 a 11 anos, cerca de 16% deles estão obesos. Precisamos reeducar os jovens e educar os pequenos para uma alimentação saudável.

O Mercado da Lapa é o principal na Região Oeste?

Sim. Ele é a terceira maior unidade da cidade. O primeiro é o Mercadão, o nome correto é Mercado Paulistano. Depois é o Kinjo Yamato, em frente ao Mercadão. A terceira unidade em porte é o Mercado da Lapa, com 97 comerciantes. É um mercado que passou por uma revitalização interna forte. Todos os permissionários e seus funcionários fizeram cursos de qualidade em alimentos, chamado de “Curso de boas práticas em manipulação de alimentos”, oferecido pela Secretaria Municipal da Saúde. Nossa equipe está constantemente lá. Quem é freqüentador do Mercado da Lapa, como eu sou, já percebe que o quadro é substancialmente diferente do que era no início do ano passado. Basta andar e ver. Antes era um mercado bagunçado com mercadorias esparramadas pelos corredores. Via-se pescados sendo comercializados fora de câmeras frias. Havia pouco cuidado com os açougues. A exposição dessas mercadorias mudou. Hoje é um mercado limpo e ordeiro. As pessoas estão com muito mais consciência sobre o que estão fazendo.

Nas feiras existe uma ordem para se colocar as barracas. Percebe-se que sempre começa pelas de pastéis e termina com as de peixe… Há um estudo sobre essa disposição?

Nas pontas de feira tem uma barraca de pastel e outra de caldo de cana. A barraca de peixe não tem um ponto determinado na feira. O que determina onde alocamos as barracas de pescados e frangos é a proximidade de uma boca de lobo. Como eles trabalham com gelo e ele derrete é preciso que haja uma boca de lobo para que essa água entre diretamente no esgoto. Preferimos colocar essas barracas próximas às de pastel, na ponta da feira. Nem sempre é possível. Legumes e verduras ficam no meio da feira. Essa disposição é feita visando a higiene e também é voltada ao hábito do consumo das pessoas: você entra na feira, compra suas coisas e na saída come um pastel. Normalmente é assim.

Existe limite de barracas, tamanhos, ocupação de ruas…

Não há limite. Temos feiras enormes na cidade de São Paulo. Se bem que as maiores ficam em ambientes confinados, em praças ou estacionamentos. A maior feira acontece em um terreno da Secretaria Estadual da Agricultura no Parque da Água Funda. Para se ter uma idéia do porte da feira a visitação média é de 20 mil pessoas com uma venda de cerca de 200 toneladas de alimento por domingo. Talvez seja a maior feira livre da América Latina. Temos algumas feiras de ruas grandes também. A maior é a da rua Carneiro da Cunha, em Pinheiros. É uma feira com seis quadras de comprimento. Quem determina o tamanho da feira são as subprefeituras que nos disponibilizam o espaço observando questões de trânsito. A partir daí vamos dimensionado a feira. As barracas têm um tamanho mínimo e máximo que seria de 20 metros de comprimentos destinadas às frutas, verduras e legumes. As menores são as de temperos, com basicamente um ou dois metros quadrados.

Os feirantes pagam por este espaço?

Há uma tabela de imposto municipal onde o feirante, de acordo com a categoria e o metro quadrado ocupado, recebe um carnê, parecido com o do IPTU, com o valor dividido em dez parcelas. A categoria de temperos, por exemplo, tem o menor custo. Normalmente são pessoas de idade, pessoas com algum tipo de insuficiência física que compõem o “grupo 21”. A maior tarifa seria para a barraca de pescado que já é uma empresa.

Qualquer pessoa pode ser feirante?

Sim. É necessário se cadastrar na prefeitura e aguardar o chamamento. Estamos alterando o sistema de acordo com o decreto do prefeito. O novo mecanismo será por licitação pública. Determinadas as áreas, as pessoas interessadas serão cadastradas para um sorteio que determinará quais serão chamados.

A prefeitura fornece alguma infra-estrutura para o novo feirante?

Os feirantes são pequenos empresários e se organizam como tal e têm seus próprios equipamentos. São micro-empresas familiares.

O aumento de prédios, moradores e, conseqüentemente, maior trânsito na região de Perdizes interfere no funcionamento das feiras?

Com a chegada de um novo prédio em uma rua de feira é preciso replanejar a feira para liberar a garagem do prédio.Quando se tem uma casa, a feira acaba incomodando um residente. Quando se tem um prédio, existe ali uma média de 40 famílias. A entrada do prédio tem que ser desobstruída para permitir o livre acesso dos moradores.

Até por isso as feiras acontecem em meio-período…

A feira deve ocorrer das seis da manhã às 14 horas. As pessoas começam a chegar um pouco mais cedo para se organizarem. O período da comercialização seria das sete às 14 horas. Às 15 horas a rua tem que estar completamente limpa e desobstruída, à disposição da população e do trânsito.

As feiras livres acontecem desde a Idade Média, com os mercados, varejões e serviços deliveries a tendência é que elas acabem ou diminuam?

O que temos observado é que o perfil das pessoas que vão a mercados municipais, e creio que isso também ocorrerá em feiras, é completamente diferente do cliente de supermercado. Quem vai ao mercado municipal são pessoas com mais tempo. Está havendo um aumento de visitas. Em feiras é mais difícil de se mensurar porque é um ambiente aberto. O que leva a isso eu diria que é o sentido da cidadania. Quando se vai ao supermercado, no máximo, um funcionário lhe cumprimentará perguntando se faltou alguma mercadoria que não encontrou na loja. No mercado ou na feira as pessoas te chamam pelo nome, sabem o que você costuma comprar, te oferecem um produto, dão prova de degustação de uma fruta, se você não tiver dinheiro, marca e paga na semana que vem… Há um atendimento personalizado. Isso está atraindo as pessoas. O nosso empenho em melhorar ambiente e produtos vem reforçar essa tendência. Eu não acredito que as feiras livres irão acabar na cidade de São Paulo. Pelo contrário, elas melhorarão e se profissionalizarão cada vez mais.

Freqüentar mercados muncipais está se tornando uma moda entre os paulistanos que saem para comer o famoso sanduíche de mortadela no Mercadão ou mesmo comer comida japonesa no sacolão da Vila Madalena…

O Mercado da Lapa também tem um sanduíche de mortadela muito bom. (risos) Quem vai a mercados, vai com tempo. Quem vai a supermercados vai correndo, geralmente no final do expediente: sai do serviço e compra alguma coisa. No mercado e na feira se vai para ter covivência. É esse movimento que estamos resgatando.

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