Em defesa da Pompeia

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Em defesa da Pompeia

Desde sempre moradora da Vila Pompeia, a advogada Maria Antonieta De Fina Lima e Silva acaba de lançar o livro “Raízes da Pompeia”. Fruto de intensa pesquisa, o livro narra as origens e os principais personagens do bairro. Através deste levantamento, afirma que o centenário da Pompeia acontece neste ano e não em 2010. Foi no dia 23 de setembro que foi feito o primeiro registro de venda de um lote. Da. Antonieta também é presidente da Associação de Amigos da Vila Pompeia e continua ativa e independente na defesa de melhorias para a Pompeia. Nesta entrevista, ela conta um pouco de sua vida, fala do bom e do pior da Pompeia com sua habitual franqueza. Não poupa ninguém e se mostra muito firme na defesa da Vila Pompeia.

O que motivou a escrever o livro? Tem gente que só quer explorar financeiramente a Vila Pompeia. Sem consultar a população, algumas pessoas resolveram instituir o Dia da Pompeia em 8 de outubro. Resolvi ir a fundo e pesquisei junto aos cartórios, USP, arquivos públicos. Descobri que em 1910, aqui era uma chácara e nos documentos que tenho, a chácara foi vendida em janeiro de 1911. Fui atrás para saber quem eram os antigos proprietários. Pela lei, só é válida uma transação imobiliária quando ela é registrada em cartório. O primeiro lote registrado foi para a Economizadora em 23 de setembro de 1911 e é onde hoje existe o Hospital São Camilo. Esta é a data oficial e tenho todos os documentos para comprovar isso. Resolvi resgatar a história da Vila Pompeia com dignidade e responsabilidade para que as futuras gerações conheçam a história verdadeira.

Então o centenário da Pompeia é em 2011? Sim. A Pompeia foi loteada em 1911. Antes disso, era uma chácara como muitas eram naquela época. Aqui foram vendidos alguns lotes. No meu livro, tem uma foto de 1920 da Avenida Pompeia sendo calçada com paralelepípedos. Ela foi a primeira a ter calçamento e tinha umas duas ou três casas, nada mais.

Quem calçou a Avenida Pompeia? Foi a Indústria Matarazzo que veio para cá em 1920. O conde Francesco Matarazzo comprou uma gleba enorme entre os córregos da Água Preta e da Água Branca. E foi ali que ele reuniu suas indústrias incluindo um ramal ferroviário para atender às indústrias dele.

No livro o conde Matarazzo tem um destaque… O conde tinha uma cabeça espetacular e tinha visão de futuro. Ele era escolarizado e inteligente. Chegou aqui em São Paulo e só tinha a Praça da Sé. Foi ele que iniciou a industrialização da cidade e ele precisava de mão-de-obra especializada já que a mão-de-obra brasileira era deficitária. Ele criou aqui as vilas operárias para suas fábricas. A Pompeia foi um polo gerador da indústria de São Paulo.

Algumas ainda existem… O conde desenhava as casas no chão com o bico do guarda-chuva dele. Eram as “casas do bico do guarda-chuva”. Os italianos fizeram tudo. Como na Itália o espaço era pouco, eles construíram aqui as primeiras vilas com as casas todas grudadas umas nas outras. É por isso que as casas são compridas e estreitas. Pulavam um terreno que servia de entrada para a vila e ocupavam todo o terreno.

Entre os imigrantes italianos, estava seu pai. Sim. Aqui só se falava italiano, se comia comida italiana e foi a igreja que começou a ensinar português para os imigrantes. Em 1925, surgiu a primeira escola junto à igreja dos camilianos, na colina. Outras escolas surgiram e num certo momento eram sete pequenas escolas. Aí o estado entrou e juntou as escolas e criou a Escola Miss Brown (entre as ruas Padre Chico e Caraíbas) onde está até hoje em um terreno que era cuidado pelo seu Mário. Ele plantou muitas árvores frutíferas e criava galinha. Mas o projeto inicial era para ser uma praça.

Quando seu pai chegou ao Brasil? Meu pai, Rocco De Fina, era da região da Basilicata e veio para o Brasil em 1920. Foi morar em Mococa, interior paulista com um tio comerciante. Depois ele veio para São Paulo.

Ele participava das reuniões dos italianos que acontecia aqui? Ele trabalhava na Indústria Wolff que fabricava talheres de prata e inox. Ele morava em Higienópolis e vinha aqui aos sábados encontrar os amigos. Ele vinha a cavalo e para não brigar com seu Mário, que tinha ciúmes das árvores frutíferas, ele e os amigos acharam um pau-ferro em Perdizes e replantaram a árvore onde hoje é o Miss Brown para ele poder amarrar o cavalo. A árvore ainda existe e está bem cuidada.

A senhora sempre viveu no bairro? Sempre. Meus pais se conheceram e casaram aqui. Morei no número 299 da Avenida Pompeia em uma casinha bonitinha, pequena e que depois foi ampliada. Aqui neste endereço moro há muito tempo. Nasci, me casei e tive meus quatro filhos e os criei aqui.

No livro o Palmeiras também é citado. A senhora é sócia do Palmeiras? Quando eu era menina, todos os italianos iam ao clube nadar, tomar sol. Era um clube familiar. Hoje o que existe é um clube de futebol. Vem gente de toda a cidade. Já fui sócia do clube por muitos anos. Hoje, não mais.

O futebol atrapalha o bairro? O futebol tem sua tradição. O Palmeiras foi fundado por quatro imigrantes italianos. Agora a coisa mudou para um comércio que prejudica nós os moradores da Pompeia.

E os outros problemas? Acabar com as enchentes é um deles. A construção da Arena no Palmeiras é outro. A hora que ela for finalizada, nós teremos muitas pessoas aqui na região em dia de jogo. O bairro é residencial e foi feito para ser operário. De repente, chegam 46 mil pessoas, como o Morumbi. Sem uma área de contenção, aonde vai ficar esse pessoal? Será um caos!

Além do futebol, estão programados shows… Em dia de jogo, os vidros aqui em casa balançam quando o pessoal vibra com os gols. Agora imagina isso com os shows? Ninguém vai aguentar…

Tem outros problemas? Não vou morrer antes de ver a canalização do Córrego Água Preta. É preciso abrir a Avenida Auro de Moura Andrade do Viaduto Antartica até o Viaduto Pompeia. Os 200 primeiros metros estão prontos. A segunda parte, que é uma área da Construtora Elber, eu consegui com muito custo que fosse feita. Precisamos que seja feita uma via que passe pelo Viaduto Pompeia e suba a Guaicurus.

Há dinheiro para essas obras? Sim, já tem dinheiro reservado para isso. Agora, eles estão finalizando a licitação e espero que tenha um cristo que queira fazer. Falta boa vontade e nesses 16 anos ninguém assumiu isso.

E se tudo isso for feito, a região melhora? Com a canalização do córrego e a abertura da Avenida Auro, melhoraria demais o desenvolvimento do bairro. E aí deve chegar gente nova com novas ideias. Mas o que me assusta é o Palmeiras. Pode ser um benefício, mas eu vejo a parte ruim dele. Um caos total. A gente não pode desistir nunca. Devemos ser perserverantes e conseguir coisas boas para todas as pessoas.

Desde quando a senhora participa da associação que preside? Desde 1987 e há 16 anos sou a presidente. São várias lutas e não é só para Pompeia. As obras servem para os outros bairros.

Como a senhora vê a verticalização do bairro? Ninguém consegue impedir.

É bom morar na Pompeia? Na parte alta, tem bom ar, muito arborizada. Não tem enchentes. O povo vive tranquilo. Não temos indústria. Comércio na Alfonso Bovero e no Shopping Bourbon, que trouxe cultura, teatro, cinema, lojas boas e caras. Quando as inundações acabarem, não dou um ano para os imóveis triplicarem de valor. Aqui é próximo de tudo. E tenho muitos amigos pelo bairro. Gente que, como eu, sempre viveu na Pompeia.

Onde seu livro pode ser encontrado? Na Livraria Cultura do Shopping Bourbon.

 

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