Histórias do Pan

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“Minha vida é um livro aberto…”. Com esta frase, o jornalista Odir Cunha recebeu o Guia Daqui Perdizes / Pompéia, em um charmoso café em Perdizes, onde mora, para uma conversa sobre os Jogos Pan-americanos. Apaixonado por esportes, Odir acaba de lançar o livro “Heróis da América – História Completa dos Jogos Pan-americanos” (Editora Planeta), uma verdadeira enciclopédia sobre a competição mais importante das Américas.
Odir trabalha com jornalismo esportivo há 30 anos. Durante sua trajetória, ganhou dois prêmios Esso pelo Jornal da Tarde. Um deles foi na retaguarda da equipe que cobriu a Copa do Mundo de 1978 e outro pela cobertura dos Jogos Pan-americanos de Porto Rico, seu primeiro trabalho internacional.
“Heróis da América” é seu oitavo livro publicado, sendo que cinco deles são sobre esportes. Obra imprescindível para todos que amam o esporte, o livro apresenta capítulos sobre cada edição dos Jogos, curiosidades, medalhas do Brasil, todos os pódios de 1951 a 2003, estatísticas, perfis dos principais atletas e referências históricas. É uma verdadeira obra-prima da literatura que não pode faltar na sua biblioteca. Acompanhe os Jogos Pan-americanos pela tevê e também pelo livro de Odir: uma divertida e curiosa saga pela história dos esportes.
Você diz que foram cinco anos de pesquisa na reta final do livro. O que foi mais importante?
Em primeiro lugar, em um livro enciclopédico sobre esportes como este, é preciso ter muita informação, muitos números e estatística, que é isso que as pessoas querem. Eu pensei também no jornalista que irá cobrir o Pan. Não pude fugir do trabalho braçal que é ter todos os resultados, todos os medalhistas de ouro, prata e bronze, o nome do atleta, o país de origem e a marca que ele conseguiu, que é muito importante. Por exemplo, se você quiser saber quem ganhou medalha de bronze no salto em altura nos Jogos de Chicago em 1979, você encontra. Outro detalhe é que foi preciso ter todas as medalhas do Brasil. Quando é competição por equipes, todos os atletas escritos naquele time. Por exemplo, no Handebol, jogam os titulares, mas têm os reservas. No livro também tem a história de cada edição dos Jogos Pan-americanos. Foram 14 já realizados e mais um agora no Rio de Janeiro. Apresento também o Pan do Rio. E muitas fotos. Precisava de muitas fotos. Os livros sobre o Pan que eu tenho são muito pobres de imagens. Essa pesquisa iconográfica também acabou sendo feita por mim. Isso foi bom porque descobri algumas fotos históricas.
Que curiosidades você destaca?
O cubano Rafael Fortún venceu a prova dos 100 e 200 metros rasos no primeiro Pan, em 1951, na Argentina, e quando ele voltou para Cuba, tinha sido demitido do emprego. Foi o maior herói cubano e perdeu o emprego. João Havelange, que depois seria presidente da Fifa, jogou pela equipe brasileira de pólo aquático, também no Pan de 1951. Outra curiosidade foram as fotos feitas por Ernesto “Che” Guevara, para a Agência Latina de Notícias, da Argentina, no Pan de 1955, na Cidade do México. Uma delas mostra um pódio com o argentino Juan Miranda, vencedor dos 1.500 metros. E o que tem a ver a Grace Kelly, atriz de Janela Indiscreta, com o Pan-americano? O pai dela, John B. Kelly foi campeão olímpico do remo nos Estados Unidos. E o irmão dela, o remador John B. Kelly Jr., também medalhista de ouro, iria participar do Pan de 1955 no México. Mas a equipe dos Estados Unidos, por incrível que pareça, não tinha verba suficiente para ir. Naquela época, o esporte era amador, não tinha patrocinadores. A renda de estréia do filme Amar é Sofrer, foi doada pela Paramount Pictures – Grace Kelly era a estrela do filme -, para a equipe dos Estados Unidos. Até Frank Sinatra doou verba dos shows.
A história do Pan vai muito além do que vemos hoje…
Sim. O que falam, as críticas que ouço sobre o Pan, de colegas nossos jornalistas, são infundadas porque as pessoas estão misturando as coisas. Elas estão pegando o fato do Pan do Rio ter estourado o orçamento em seis vezes, o que é um absurdo, com o fato do Pan não ser importante. O Pan é essencial para o desenvolvimento esportivo dos países americanos.
Quais são os benefícios para o país que sedia o Pan?
Por exemplo, o país que faz o Pan-americano tem que criar uma estrutura esportiva, se não a tiver. Constroem ginásios, quadras, campos, etc., que beneficiarão o desenvolvimento esportivo daquele país. O Pan também sensibiliza a opinião pública porque fica se falando muito tempo nos Jogos; muita gente que nunca ouviu falar começa a se interessar. Além de não ser uma competição mono esportiva. Não é só futebol… No Pan do Rio haverá 41 modalidades. As pessoas acabam se interessando por outras modalidades as quais não se interessariam se não houvesse o Pan. E quantos jovens não passarão a praticar essas modalidades por assisti-las no Pan? Há o reconhecimento nacional em relação a alguns esportes que seriam
Quais as promessas para o Pan do Rio de Janeiro?
No Rio, nas maratonas aquáticas, uma nova modalidade esportiva, veremos uma nissei chamada Polyana Okimoto, que certamente vencerá a prova de 20 ou de 50 quilômetros. Eu acho que ela se tornará uma nova estrela. Fabiana Murer no salto com vara deve ganhar medalha de ouro. Uma mulher saltando com vara é uma coisa nova. Tem também a ginástica de trampolim, que é uma cama elástica. Visualmente é lindo de ver. E também é esporte que irá estrear no Pan. O futebol de salão finalmente também vai estrear no Pan e todos os ingressos já estão vendidos. E o futebol feminino que já participa há umas três edições. O Brasil é o atual campeão e também deve ganhar medalha de ouro. A melhor jogadora de futebol feminino é uma brasileira, a Marta. O Pan dá todas essas possibilidades. Está comprovado que a prática esportiva é um dos meios mais eficazes de afastar os jovens das drogas, da violência…
Ao se falar no combate à violência por meio do esporte, o Pan tem um significado maior por ser no Rio de Janeiro?
Acaba tendo porque, infelizmente, o Rio é uma das cidades mais violentas do mundo, proporcionalmente à sua população e por estar em um País que não está em guerra. Não dá para comparar com Iraque ou Faixa de Gaza. Mas para um País que não tem guerra e tem tantos casos de violência acaba sendo um símbolo. O Pan tinha que ser lá mesmo para que haja esforço de toda a sociedade brasileira pela paz e o Rio representa o Brasil inteiro porque não é só o Rio que está tão violento. São Paulo, Recife, Vitória, o interior de São Paulo… E o esporte é um meio de se combater isso aí. Se houve um gasto excessivo do dinheiro público, é um outro aspecto, tem que ser investigado. Como cidadãos temos que exigir isso. Mas não quer dizer que não se deva realizar o Pan. Os países mais desenvolvidos esportivamente nas Américas, com exceção de Cuba, já realizaram o Pan duas vezes cada um. O Brasil só uma vez, em São Paulo. Estados Unidos, em 1959 e 1987, México, em 1955 e 1975, Argentina, em 1951 e 1995, Canadá, em 1967 e 1999. Faltava mesmo o Brasil. Não se pode dizer que não vamos mais construir hospitais, nem escolas e nem estradas porque o nosso País só tem político corrupto e eles vão meter a mão. Espera aí! A gente não pode ter é político corrupto e a coisa está cada vez pior. Eles se reúnem e aumentam os próprios salários. Tem estudos que provam que o parlamentar mais caro do mundo é o brasileiro. Cada parlamentar brasileiro recebe três vezes mais do que o americano e dez vezes mais do que o argentino. Isso tem que acabar. Agora, não dá para dizer que houve má utilização do dinheiro público no Rio de Janeiro. Mas deveriam investigar sim porque corrupção não tem nada a ver com esporte. Acredito que o país, ainda mais país com tradição em esportes, precisa ter Pan-americano, Olimpíadas, Copa do Mundo… Por que não?
O Pan abre caminho para essas outras competições?
Sim. O Rio de Janeiro só gastou tanto dinheiro com o Pan porque já está criando uma infra-estrutura pensando em ser candidato para uma Olimpíada futura, talvez a de 2016. Isso já está na mente do Comitê Olímpico Brasileiro. E uma curiosidade: o Pan de São Paulo em 1963 deu lucro, foi barato. A única construção feita foi a Vila Olímpica, hoje o Crusp, na USP. E o lucro do Pan foi usado para o Comitê comprar sua primeira sede própria, no Rio. No Pan de São Paulo usaram os clubes, a represa de Guarapiranga para as provas de Vela, o autódromo de Interlagos. Foi um exemplo de organização na época. O esporte é uma maneira de você minimizar a violência, sublima a agressividade e para o nosso País é uma saída interessante para os jovens. Se dessem aos jovens mais oportunidades de ser atleta, mesmo amadores com certeza diminuiria os índices de violência. A música é importante e o esporte. O Pan é a bola da vez e quem o critica está na contra-mão, não entende o significado disso tudo.

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