Pela cultura tradicional

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Toninho Macedo. Este nome diz tudo quando se trata do resgate da cultura popular e do folclore do Estado de São Paulo.
Professor, doutor em comunicação e um dos mais importantes especialistas em cultura popular de São Paulo, além de um apaixonado pelas tradições do nosso povo, Toninho criou, em 1973, a Abaçaí Cultura e Arte, uma organização não-governamental que desenvolve programas de formação, educação, produção artística e ação cultural inclusiva. Um dos frutos da Abaçaí é o programa Revelando São Paulo, que anualmente acontece no Parque Dr. Fernando Costa (Água Branca). O Revelando reúne o que há de mais expressivo na cultura tradicional paulista: artesanato, culinária, dança, etc.
Atualmente, cerca de 190 municípios participam do Revelando, a maior festa da cidade. Todo ano, um dos destaques é a presença da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, reverenciada pelos devotos durante todo o evento.

Como nasceu a Abaçaí?
Em março de 2008, a Abaçaí completa 35 anos. É uma trajetória ininterrupta. Evidentemente que nós, nestes 35 anos, só fizemos alargar o nosso espectro. Fomos abrangendo cada vez mais este universo da cultura, e não somente arte. Estamos no Parque há dez anos. Começamos na periferia de São Paulo, Zona Leste, em um colégio do Estado. A maioria dos educadores acha que a precariedade da educação não permite que surjam ações duradouras, mais estáveis e significativas. Justificam, inclusive, que a educação hoje tem mais dificuldades do que há um tempo. Pois bem. Colégio da periferia, 35 anos atrás, tínhamos drogas nas ruas, tínhamos tudo que vocês possam imaginar. Eu era professor e nas horas de folga comecei a usar o teatro como instrumento. Naquele momento já era com a preocupação de ação cultural, mais abrangente e duradoura, com foco na transformação das pessoas para que elas começassem a se encontrar. E tínhamos um agravante naquele momento que era a Ditadura Militar. As escolas eram hiper vigiadas. Teatro na escola, ação cultural com os alunos era algo assim… Bom, eu perdi as aulas. Perdi as aulas mas ganhamos São Paulo. Aliás diria hoje que ganhamos o Brasil porque o Abaçaí tem uma respeitabilidade em nível nacional.

Seu trabalho já era voltado para a cultura popular?
Já tínhamos esta abertura. Quer dizer, intuitivamente sabíamos que lidávamos muito mais do que com arte, com teatro e com cultura. Eu desenvolvi algumas atividades, dentro da escola, com cultura tradicional com os alunos. E já procurando corrigir alguns desvios. Por exemplo, chegava época de São João, isso fora do Abaçaí, e ao invés de levar aos alunos aquele nível de alta imbecilidade que é pintar dentinho, porque diz que está imitando um caipira que ninguém sabe de onde saiu, porque ele não existe, nós tínhamos feito esta correção. O foco que temos hoje já existia. Eu dei aulas cinco anos e foi no último ano que surgiu o projeto. Quando chegamos ao Abaçaí já tinha este foco, já misturava as coisas. Mas foi um pouco depois que tive consciência de que deveria me especializar. E fui fazer um curso no Museu do Folclore. Aí que veio a pesquisa sistematizada, conviver com pesquisadores, saber da atualização das bibliografias.

O folclore sempre foi uma paixão?
Sim. Eu sou do interior do Rio de janeiro, da região de Três Rios. Na família da minha mãe havia toda uma tradição reizeira. Tataravós, bisavós, vieram cantando Reis das ilhas, especialmente da Ilha da Madeira. Eu cresci vendo Reis e recebendo, na casa da minha avó, os palhaços. Tendo medo como todas as crianças tinham, vendo todas as manifestações mais tradicionais de Carnaval e as brincadeiras. Eu fui muito privilegiado porque minha avó e tias não se furtavam de cantar. Ficávamos sentados nas noites frias em torno do fogão à lenha. Acordava de manhã cedo e vovó estava fazendo broa… E separava uma parte da massa para fazer a cavaca, para assar na chapa. Como fazemos no Parque hoje. Da parte do meu pai foi a mesma coisa. A família era de músicos, gostavam de cantar, de fazer festa. Graças a Deus tive esta infância. O que aconteceu foi que, quando fui para o Museu de Folclore, eu só pude valorizar esta chama e olhá-la por outro viés, abrir o foco.

E daí para o Revelando foi um passo…
O Revelando tem alguns ancestrais. O trabalho de pesquisa já havia começado. O trabalho de projeção estética, ou seja, aproveitar o material pesquisado para fazer a difusão cultural vinha vindo. Cerca de uns 20 anos atrás, começamos a organizar alguns eventos para o Sesc. O Arraial do Sesc Pompéia, por exemplo, com a abrangência que havia um tempo atrás, fui eu quem fiz. Na década de 1990, dentro do próprio Sesc, fizemos o arraial de São José dos Campos onde transplantamos para o Sesc parte da cultura tradicional de São José. Daí pro Revelando tive que dar um pulinho. E a coisa aconteceu. O Revelando teve uma grande madrinha, a Lucinha Mendonça. Ela começou a ter contato com o que a Abaçaí fazia, perdeu-se de paixões e cobrava do Marcos Mendonça, secretário de Cultura na época, que também tinha este olhar. E ele, em um momento, disse que queria olhar para o folclore. Pedi um mês e coloquei o projeto na mesa dele. Foi acolhido e já são onze anos.

Quantas cidades participam do Revelando hoje?
O nosso desafio é aquilo que nós não podemos ampliar. Por exemplo, são 150 espaços de artesanato. Este ano demos uma avançada. 80 espaços de culinária. Saltamos de 70 para 80. Isso determina que só poderemos contemplar 80 produtos ou 80 visões da nossa culinária tadicional e 155 municípios com artesanato. Chegamos a 180, 190 municípios participantes. Tem municípios que não participam com culinária e com artesanato, mas vem com grupos. Outros participam com grupos, animais, culinária e artesanato. Eles se sentem bem fazendo isso porque colhem resultados da vitrine. Aplicamos este conceito. São Paulo é uma grande vitrine. Só que até o Revelando São Paulo ela servia para divulgar, difundir produtos culturais massivos sempre fora de São Paulo. Os grandes cantores vem fazer seus shows para divulgar seus discos, por exemplo. Certa vez, o Fagner deu uma entrevista e deu esta chave para a gente. Ele disse que, quando está gravando, fica no Rio de Janeiro. E disse: “O resto do tempo fico no meu Ceará”. Ele disse ainda que tem que vir para São Paulo porque se não passar por aqui, não paga conta. Pois bem, por que a cidade de São Paulo, que alavanca tudo isso, não pode alavancar sua cultura? Naquele momento pensei na face recatada de São Paulo. Divulga-se essa coisa agressiva, mas a face recatada dos paulistas não aparece. Hoje os prefeitos, os dirigentes de cultura e os próprios artesãos reconhecem isso. Um detalhe importante, em primeira mão, é que são mais ou menos 500 artesãos que passam pelo Revelando da capital e pelas versões do interior. São pessoas que, de alguma forma, ou tem complementação de renda ou tem a renda. E eles reconhecem isso. No ano passado, um dos artesãos que veio conversar conosco, só na capital vendeu 12 mil reais. Mais seis mil e quinhentos no Revelando do Vale do Paraíba. É uma renda anual. Para o artesanato isso é muito evidente. Na culinária é a mesma coisa. Em 2005, a senhora que produz os capotados (bolinhos de milho com frango), isso é depoimento dela, só na capital produziu 15 mil e 200 capotados. O lado impressionante do trabalho que fazemos foi que ela colocou as mãos em prece e disse: “Eu, graças a Deus, quando voltei para minha cidade, terminei de pagar a minha casa”. São muitas as histórias que mostram este lado tangível do Revelando São Paulo. Até aqui a gente só mostrou o intangível. Mas começamos a abrir para mostrar os resultados concretos. Não há, no Brasil inteiro, um programa que dê estes resultados.

Quem apóia o evento?
Temos um aporte monetário do Governo do Estado, há uma dotação. Até então não havia recursos para investimento na cultura tradicional. Hoje temos e aplicamos nesta alavancagem. Cada município participante é parceiro. Temos outras parcerias de instituições da sociedade civil. Também temos pessoas e instituições que respiram este clima do Revelando São Paulo e que nos ajudam a andar. Os segmentos religiosos, por exemplo, vêem no Revelando este ponto de convergência.

O senhor fala sobre os resultados para quem participa do Revelando. Para os visitantes, o que um programa como este representa?
Temos dois focos para os visitantes. Diria que, em primeiro lugar, há dois anos, fizemos uma pesquisa de qualidade e o Revelando crescia, em termos de público, cerca de 25% ao ano. O que não é pouco. No ano passado, cresceu 50%. Chegamos a um milhão e meio de pessoas. No meio desta pesquisa, as pessoas declararam que acompanham o evento desde o primeiro ano. E declararam que também trazem outras pessoas. Elas se alimentam. Poderia acrescentar que elas se alimentam de beleza, daquela egrégora que se forma no parque. As pessoas estão buscando isso hoje: tempo de qualidade. Tem pessoas que entram no parque de manhã e só saem a noite. Acompanham tudo, almoçam… Cheguei a perguntar se elas não se incomodavam com filas na culinária. Em todo lugar fila dá briga. Eu fico incomodado. E quando perguntei, disseram que a fila é uma festa! Enquanto esperam, conhecem outras pessoas, trocam receitas, contam histórias, revivem coisas… Que bom! No ano passado, só no último domingo, entraram no Parque 500 mil pessoas. Não se vê gritaria, apupos, agressões, não há relatos da Polícia Militar. Esta é a grande resposta que as pessoas dão. Quem quer outra coisa, vai para outros cantos. As pessoas estão buscando algo diferenciado, que contemple o seu interior, um tempo de vivência, compartilhamento que não existe atualmente. Ele até existe, mas não é valorizado. A maioria dos eventos apresentados à população sinalizam outra direção. Não são eventos que reflitem cultura de paz, que é o que buscamos.

Tem algum projeto para que o Revelando se estenda para o Brasil inteiro?
(risos). Existe! Primeiro existe uma demanda de outras regiões do Estado. Por exemplo, a região bragantina, a região tropeira, também reivindicam. Ao lado disso, temos um projeto chamado Brasiliana. É o mesmo perfil do Revelando, mas fazendo confluir, na cidade de São Paulo, esta cidade que tem a cara de Brasil, o Brasil. Isso já vem sendo embalado. E os vários estados que já tiveram contato com o perfil do Revelando nos fazem perguntas e começam a ensaiar respostas. Uma região da Baixada Fluminense, no Rio, está embalando um projeto chamado Cadê você?, que é buscar a revelação. E é justamente a região mais complicada. Através da Abaçaí mantemos esta rede com pesquisadores do Brasil todo. Um novo olhar é um exercício constante da Abaçaí.

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