Terceira geração

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Terceira geração

Andrea Matarazzo faz parte da terceira geração da família que teve um papel muito importante na industrialização do Brasil. Várias das fábricas do grupo funcionavam no bairro da Pompeia e arredores. Paulistano e empresário, ele participou nos últimos anos de diversos escalões de governo – municipal, estadual e federal. Foi embaixador do Brasil na Itália e mais recentemente esteve à frente da Secretaria da Cultura do Estado. Agora, parte para disputar uma vaga na Câmara dos Vereadores de São Paulo. Nesta entrevista, Andrea fala de suas lembranças do bairro e sua opinião de administrador público sobre diversos problemas da cidade.

Que lembranças o senhor tem da Pompeia?
Quando era pequeno ia às fábricas que ficavam no bairro. Ia à fabrica de biscoitos Petybon que ficava na Rua Coriolano, na Lapa e o cheiro dos biscoitos era uma delícia.

A região era muito diferente do que é atualmente?
Sim. Hoje, onde está o Shopping Bourbon era uma fábrica da Matarazzo. Depois foi transformado em Shopping e Supermercado Matarazzo. Quando chovia, alagava.

A família Matarazzo também deu ajuda ao Palmeiras?
O terreno onde está o Palmeiras foi uma doação da Matarazzo. O conde Francisco Matarazzo fez parte da diretoria do Palmeiras, assim como muitos outros integrantes da família.

O senhor seguiu a tradição?
Sou palmeirense mas acompanho o futebol de longe.

Como o senhor define a região?
É diferente e interessante com uma cultura bem diversificada. Nos últimos anos a expansão imobiliária da região tem sido muito grande. Na Pompeia as pessoas gostam do bairro e cuidam mais. Um outro bairro da cidade que tem essa característica é a Mooca.

Que lugares o senhor frequentava além das fábricas da família?
Ia permanentemente ao Parque da Água Branca para ver as exposições de gado que sempre aconteciam. A área é belíssima e as exposições deveriam voltar a acontecer por lá.

Que ligação a sua família tem com a cidade?
A história da minha família está muito amarrada com a cidade. Estar no serviço público é uma forma de agradecer à cidade o muito que ela nos deu. Meus tios deixaram na cidade algumas marcas. Desde o Palácio dos Bandeirantes, o Edifício Matarazzo (atual sede da prefeitura) e doaram a área do parque Trianon (Siqueira Campos, na Avenida Paulista). Meu tio Cicillo Matarazzo presidiu a comissão do 4º Centenário da Cidade que criou o Parque do Ibirapuera (1954). A doação dos museus de Arte Moderna e de Arte Contemporânea foram feitos pela família Matarazzo. Parte do Parque do Piqueri, que era uma chácara que pertencia à família.

Que exemplos eles deixaram para as outras gerações?
Mostra a capacidade de trabalho que meus antecedentes tiveram. Eles chegaram aqui enfrentando uma dificuldade imensa. Quando chegaram aqui, o Brasil ainda era império e tinha escravidão. Eles eram vendedores de secos e molhados e tiveram de começar do nada. Trouxeram produtos de secos e molhados, mas o navio afundou com toda a mercadoria. Foram para Sorocaba e lá eles venceram. O Conde Francisco Matarazzo em 1920 era o italiano com a maior fortuna no mundo. Na época, ele tinha uma das dez maiores fortunas do mundo.

Eles até voltaram para a Itália para lutar na I Guerra?
Em 1914, já rico, o conde e o irmão André voltaram para a Itália para lutar na guerra. Ficaram dois anos lá. Pela ajuda eles receberam o título de conde do governo italiano. O conde Francisco Matarazzo, além de trabalhador era apaixonado pelo Brasil e pela Itália.

O rock brasileiro tem origem na Pompeia. Era o seu estilo musical?
O rock não era a minha grande paixão, mas sempre esteve presente na vida daquela geração. Eram bandas que tiveram qualidade e muitas ainda estão em atividade.

Como o senhor entrou na vida pública?
Saí da iniciativa privada, um pouco por sorte e um pouco direcionado, para o setor público como presidente da CESP (Centrais Elétricas de São Paulo). Era a terceira estatal do país e foi uma experiência boa. De lá, fui para a Secretaria de Energia. Pude acompanhar a relação do estado com os diversos municípios, Assembleia Legislativa, Câmara dos Vereadores. De lá, fui para Brasília como ministro das Comunicações do governo do Fernando Henrique Cardoso. Foi fascinante, sem dúvida nenhuma. Atuei nas três esferas do poder.

Nomeado embaixador do Brasil na Itália, foi uma forma de voltar às origens da família?
Quando o Fernando Henrique Cardoso me nomeou embaixador, ele me disse que seria a terceira geração da família que voltava à Itália como representante de uma família de imigrantes italianos. Foi emocionante também pela maneira como os italianos me receberam.

A volta ao Brasil o levou a assumir cargos na prefeitura de São Paulo.
Quando voltei para o Brasil, fui nomeado subprefeito da Sé. Foi interessante para entender como funciona uma subprefeitura. Depois acumulei a subprefeitura da Sé com a Secretaria de Serviços. Trabalhei com assuntos essenciais que abrange a cidade inteira: limpeza pública e iluminação pública, além do serviço funerário. Depois assumi a Secretaria de Subprefeituras, que abrange todas as subprefeituras e todos os serviços. Foi fascinante principalmente pelo contato diário com as pessoas. Os melhores fiscais da cidade são os cidadãos.

Quem o levou ao PSDB?
Entrei no partido pelas mãos do Arnaldo Madeira e do Mário Covas. O Arnaldo trabalhou por muitos anos na Matarazzo. Meu primeiro cargo no governo foi com o Mario Covas.

É bom ter tantos coronéis à frente das subprefeituras?
No passado, as subprefeituras foram muito usadas politicamente e acabaram por não fazer o que deveriam fazer. No início, a ideia foi despolitizar as subprefeituras. Hoje, dependendo do papel que a subprefeitura exerça você pode montar a subprefeitura de outra forma. É preciso dar mais força para elas.

Uma revista o chamou de super-xerife da cidade. Por quê?
Me chamaram assim porque eu estava sempre presente nos problemas da cidade e principalmente de ouvir e tratar dos problemas da cidade. Eu sempre apliquei o mesmo peso e a mesma medida independente de ser Jardim América ou Cidade Tiradentes. Acho que isso fez uma diferença enorme e estar presente.

É verdade que o senhor percorria a cidade à noite para fiscalizar a cidade?
De madrugada eu percorria a cidade, que ficava mais fácil e nos finais de semana, eu saia de motocicleta, que fica mais fácil para circular. Sempre tive esse hábito de andar à noite pela cidade. E quando era secretário muito mais. E via in loco os problemas. Via como a cidade estava, os buracos, a iluminação e principalmente para ver se os problemas apontados foram resolvidos.

Quais são os maiores problemas da cidade?
Pontos de alagamentos; áreas de risco; trânsito e mobilidade. Os ônibus precisam ser modernizados e precisam avançar e melhorar muito. A velocidade média de alguns ônibus na cidade é de 11 km/hora. É quase a velocidade de quem anda a pé.

A cidade vai ficar melhor com eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas?
É um absurdo que tenhamos de ter um evento desse porte para fazer o que a cidade precisa. Precisamos melhorar a cidade para os paulistanos, para quem mora e vive aqui. 
 
Qual é a sua opinião sobre a Lei Cidade Limpa e outras leis que surgiram?
A Cidade Limpa foi uma das lei que o Kassab fez e eu implementei. Melhorou a cidade e melhorou o comércio. A cidade ficou mais verde e ela ficou melhor. Apliquei a lei para todos. A lei antifumo é outra lei importantíssima, e eu sou um fumante. Acho que a lei me fez fumar bem menos e foi outra lei importante, moderna e positiva para a cidade e para o estado.

São Paulo precisa ter um projeto de reciclagem mais amplo?
A reciclagem precisa ser ampliada por toda a cidade. A prefeitura está instalando containeres pela cidade.

Por que algumas leis pegam e outras não?
Algumas leis aqui pegam e outras não por uma questão cultural e pela impunidade. A Cidade Limpa pegou por causa da multa alta e pela fiscalização. A questão das faixas de segurança está melhorando e acho que vai pegar. A sociedade precisa comprar a ideia para pegar.

As pessoas deficientes estão bem atendidas na cidade?
Precisamos ter cada vez mais de políticas para deficientes físicos. É preciso estar na rotina da cidade. Precisamos também desenvolver políticas públicas para dependentes químicos, com internação, onde as pessoas que não têm família possam receber um tratamento adequado.

A cidade está preparada para receber os ciclistas?
Ando de motocicleta pela cidade e sei o quanto a cidade é temerária para veículos de duas rodas. Precisamos de uma legislação mais adequada para motociclistas e ciclistas. Precisamos educar melhor e mais as pessoas e transformar a cidade para receber melhor essas pessoas. Mais importante é a educação do motorista. O ciclista precisa descer da sua arrogância que acha que pode tudo.

As calçadas da cidade também precisam de atenção?
As calçadas precisam estar livres e limpas para o pedestre. A maioria delas é um desastre. Não só para os deficientes. Temos 34 mil quilômetros de calçadas na cidade. Consegui reformar mil. Se conseguirmos fazer 8 mil, conseguiremos atender a 80% das calçadas que os pedestres mais usam.

E como tratar a verticalização da cidade?
Evitar é muito difícil. Precisamos com planejamento evitar o excesso da verticalização. Precisamos aproveitar a infra-estrutura da cidade para concentrar mais moradores. É preciso criar outros “centros” e ter mais áreas verdes, essencialmente.

Qual será seu futuro político?
Vou sair como candidato a vereador. Conheço bem as leis da cidade e acho que posso ser uma das opções.

O que a cidade tem de bom e ruim?
Ela tem uma vitalidade e uma dinâmica muito grande e sempre está se modificando. Acho que o ruim é a concentração de veículos. Pedágio urbano ainda não será a solução. Antes, precisamos operar melhor os corredores de ônibus, semáforos inteligentes. A diversidade cultural da cidade é o que ela tem de melhor. Tudo o que temos de cultura aqui nos coloca entre as 5 melhores cidades do mundo.

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