O verdadeiro espírito do Natal

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O verdadeiro espírito do Natal

Formado em Letras, Pedagogia e Comunicação no Brasil, em Semiótica na Alemanha e em Teologia na Itália, esse gaúcho de nascimento fez ainda doutorado em Geografia Humana na USP. Hoje, além de exercer um reconhecido e ativo trabalho social na paróquia do bairro, dá aula de Introdução ao Pensamento Teológico em diferentes faculdades da Pontifícia Universidade Católica e de Comunicação e Pastoral, Homilética, Ética e Pastoral, entre outras, na Faculdade de Teologia, também da PUC.

Nesta edição de final do ano, o Monsenhor fala com exclusividade ao Guia Daqui Perdizes-Pompeia sobre o verdadeiro espírito natalino, que deve permear a data e também a nossa vida. 

O simbolismo do Natal extrapola a religião católica?
Na minha maneira de ver, a data em que comemoramos o nascimento do Cristo é menos importante do que seu simbolismo. Mesmo porque existem contradições quanto ao dia exato do nascimento Dele. O mais importante de tudo é que o Natal é sempre uma proposta de renascimento, no qual cada pessoa é chamada a rever sua vida, suas atitudes, comportamentos, para propor algo novo. O Natal também, na linha antropológica, sugere que todos nós paremos para fazer uma autoanálise e para tentar fazer diferente no próximo ano. Então o Natal é esse tempo maravilhoso, onde as pessoas precisam entender que “alguém” nasceu para que todos pudessem nascer de novo. Isso é mesmo maravilhoso.

Nesse renascimento, então, está presente o espírito de Natal?
Sim. Inclusive o próprio Cristo disse a Nicodemos: “Você tem de nascer de novo”, e assim é o espírito de Natal. Quer dizer, toda essa parte de simbologia deve ajudar a esse novo nascimento. Ser um melhor pai, uma mãe melhor, um filho mais acolhedor para seus pais, uma filha capaz de refletir sobre si mesma… pois, se não tomarmos cuidado, nós só olhamos para fora, principalmente porque o Natal se transforma fácil em beleza para os olhos – há luzes, a cidade se enfeita – e não valorizamos o que está dentro de cada um de nós, como deveria ser. 

Como devemos proceder para entrar no espírito natalino?
Devemos nos perguntar: “o que devo fazer para ser uma pessoa melhor, mais compromissada com as questões sociais, dentre elas a família?” “Como me comprometo com as questões de Jesus, que é um olhar profundo para todos aqueles que sofrem, para os excluídos, os doentes?” Veja bem, o espírito do Natal é uma retomada da vida e do sentido da própria vida. 

O consumismo deturpou o verdadeiro significado do Natal?
O consumismo continua deturpando… porque numa sociedade capitalista como a nossa, as pessoas olham muito o produto e concorrem entre si para ter o que o outro tem. Isso invade todas as relações sociais e, nesta época, isso fica bem evidente e é muito triste. O Natal não é uma concorrência. Nesta época devemos pensar que o grande presente que nos foi dado por Deus foi seu filho Jesus Cristo. Então essa corrida consumista de fato pode perturbar o verdadeiro nascimento. A espiritualidade nesta época deve ser mais trabalhada nas famílias, nas escolas e na sociedade de modo geral. Por isso, vamos fazer celebrações para abrir os olhos das pessoas para outra realidade, para a realidade interior de cada um, da família, da sociedade, onde cada um de nós tem algo a dar como irmão, criar a justiça e a fraternidade. 

Então, há esperança de mais pessoas viverem esse clima?
Sim. Só o fato do Natal proporcionar encontros na família, o que pode parecer até pequeno, é algo muito grande. Mesmo que a pessoa não tenha muita consciência sobre a data, no seu sentido original do nascimento de Jesus, ela será tocada pela emoção do momento ao encontrar seus entes queridos todos juntos. O Natal é como a água que cai na terra e produz frutos, ele nunca passa tão neutro como parece.

A seu ver, as pessoas estão se afastando da Igreja Católica, migrando para novas religiões? Isso ocorreu em sua paróquia na Vila Leopoldina?
Na comunidade em que atuo há 26 anos não. Sinto isso porque tivemos que abrir mais dois novos horários de missas aos finais de semana já há algum tempo. Também tivemos de abrir turmas de catequeses à noite (hoje contamos com 36 pastorais). Na verdade, sinto que muitas pessoas estão retornando ao catolicismo. Em geral, elas tiveram experiências em outras religiões, e agora estão novamente conosco, o que é um bom sinal. É uma alegria para mim e para todas as pessoas já envolvidas nos trabalhos da paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro de Vila Leopoldina.

Conte sobre sua relação com o bairro da Leopoldina e com a paróquia.
Eu fui para lá em 1988, pouco mais de 25 anos, e tenho um grande carinho pelo bairro, especialmente pelas pessoas que lá residem e que têm valores cristãos arraigados. Existem muitas associações naquele bairro também que criam esse ambiente familiar na região. De minha parte, tudo o que eu puder fazer para ajudar, eu faço, apoiando e participando de eventos comunitários com o objetivo de ver o bairro cada vez mais saudável, amigo e preocupado com os menos favorecidos. 

Quais os trabalhos sociais desenvolvidos naquela paróquia?
Temos a Casa Pequeno Cidadão, que abriga 26 crianças enviadas pelo juiz da Vara da Infância e da Juventude. Crianças abandonadas, que sofreram maus tratos, fraturas, e que a comunidade da paróquia acolheu, fazendo de tudo para que tivéssemos um local apropriado, onde os pequenos hoje ficam e são bem cuidados. Temos também o Centro da Juventude, que funciona ao lado da paróquia Nossa Senhora de Fátima. São 120 crianças de escolas estaduais que fazem a refeição todos os dias e têm reforço escolar, música, ginástica, computação. Muitas dessas crianças não tinham onde ficar após as aulas normais e lá elas aprendem e ficam protegidas. 

Quais são suas maiores preocupações hoje na comunidade?
A comunidade religiosa está cada vez mais diversificada na Zona Oeste, por conta das pessoas que estão chegando à região. Muitos já estão participando da igreja e minha preocupação é como envolvê-las mais nos trabalhos da comunidade da Leopoldina, onde atuo. A Paróquia N. S. de Fátima continua recebendo doações de roupas, calçados, livros, material escolar… muitos dos objetos são destinados aos necessitados e outros são vendidos em nosso Bazar da Pechincha, que acontece toda quarta- -feira na igreja da Leopoldina. Esse dinheiro vai para nossas obras assistenciais. Mas me preocupo em abrir perspectivas, o que não é fácil, e desenvolver novas pastorais voltadas ao meio ambiente, aos dependentes químicos, à esperança (reunindo pessoas que se preocupam com os que perderam seus entes queridos), à fé e à política, por entender que a política é um instrumento de construção da sociedade e que os princípios cristãos, como ética, virtude, justiça, não demagogia, etc., têm muito a contribuir para a sociedade. 

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